No dia 6 de maio de 2026, São Paulo sediou a abertura da quarta edição da BIM Fórum Conference Brasil, evento que se consolida como o epicentro nacional para debates sobre transformação digital no setor da construção civil. O encontro atraiu profissionais de engenharia, arquitetura, empresas, representantes do governo e especialistas de renome, todos reunidos para discutir os avanços e desafios do uso do BIM, da inteligência artificial (IA) e da gestão integrada de dados em obras brasileiras. A conferência, que segue até o dia 7 de maio, reflete o crescente protagonismo do Brasil na adoção dessas tecnologias para impulsionar a eficiência, transparência e sustentabilidade nos canteiros do país.
BIM e inteligência artificial transformam o cenário brasileiro
A programação de abertura foi conduzida pelo presidente do BIM Fórum Brasil, Rodrigo Koerich, e pelo vice-presidente Humberto Farina, que enfatizaram o poder disruptivo da digitalização na construção civil. O destaque do dia ficou para os painéis e palestras que abordaram desde a industrialização de obras até a utilização de IA em gestão de projetos, passando por políticas públicas e sustentabilidade orientada por dados.
Bruno Stefani, ex-diretor de Inovação da Ambev e do Itaú, foi o primeiro painelista a tratar do impacto da inteligência artificial na liderança empresarial. Sua análise, ancorada em experiências práticas, evidenciou como o uso estratégico da IA pode aprimorar a tomada de decisões, mitigar riscos e acelerar a transformação digital de construtoras, projetistas e órgãos públicos. Para Stefani, a adaptabilidade e a integração de equipes são fatores determinantes para que empresas do setor prosperem em um ambiente cada vez mais tecnológico.
- Uso crescente do BIM e IA para gestão e automação de processos;
- Foco na interoperabilidade e integração dos dados desde o projeto até a operação;
- Ênfase em sustentabilidade, com dados orientando decisões de menor impacto ambiental;
- Crescimento do diálogo entre governo, empresas e academia sobre a transformação digital do setor.
Normas, padrões e inclusão de dados: revisões e desafios
Paul Shillcock, diretor da Operam Academy e referência em gestão da informação, apresentou as novidades sobre a revisão da ISO 19650, norma internacional que define diretrizes para o uso do BIM em projetos e ativos construídos. Shillcock destacou a importância dos Ambientes Comuns de Dados (CDE) e a padronização dos fluxos de informação como base para ganhos de produtividade, transparência e rastreabilidade em obras públicas e privadas. Atualmente, a ABNT NBR 15965 regula os critérios para modelagem da informação em BIM no Brasil, atuando em convergência com normas internacionais para impulsionar a interoperabilidade.
Outro painel de destaque ficou a cargo de Calvin Kam, presidente da buildingSMART EUA, que celebrou 25 anos de trajetória do openBIM. Segundo Kam, a adoção do BIM na construção brasileira já permite saltos qualitativos em grandes obras de infraestrutura e edificações, especialmente quando associada ao uso massivo de indicadores de desempenho e à integração entre disciplinas. “O Brasil avançou, porém ainda tem espaço para ampliar o vínculo entre planejamento digital, gestão de dados e tomada de decisão fundamentada em métricas”, avaliou o especialista.
“A digitalização do setor é inexorável: BIM e IA estão redefinindo processos, reduzindo desperdícios e catalisando a cultura de dados em todo o ciclo de vida das edificações”. — Calvin Kam, buildingSMART EUA
Premiação reconhece inovação em BIM em múltiplos setores
Além de discussões técnicas, o evento também consagrou empresas e projetos que vêm liderando a incorporação do BIM e da transformação digital na construção civil brasileira. O júri do 3º Prêmio BIM Fórum Brasil, uma das principais distinções do setor, anunciou os vencedores de seis categorias:
- Construção de Edificações: “Usos BIM em Construções Residenciais”, desenvolvido pela MRV&CO.
- Operação e Manutenção: “Gêmeos Digitais em Barragens de Mineração”, iniciativa da Vale.
- Educação: “Plano Amplo de Capacitação BIM na FAB”, realizado pelo CEPE.
- Projeto de Edificações: “Ecossistema BIM”, do Grupo Método.
- Projeto de Infraestrutura: “Gestão BIM para Smart Roads: Projeto da Concessão Rodoviária Rota Sorocabana”, da TPF Engenharia.
- Projeto de Infraestrutura: “Metodologia BIM no Ciclo de Vida de Projetos de Subestação”, da Andrade Gutierrez.
A presença de grupos como MRV&CO, Vale, Grupo Método e Andrade Gutierrez entre os premiados evidencia como grandes incorporadoras, mineradoras, concessionárias e órgãos federais estão na linha de frente da digitalização, multiplicando cases de sucesso que dialogam com desafios nacionais como escassez de mão de obra, aumento da produtividade, sustentabilidade e segurança de barragens.
Integração público-privada e perspectivas da Estratégia BIM BR
O evento também aprofundou o debate sobre a atuação dos grupos de trabalho do BIM Fórum Brasil e o próximo ciclo da Estratégia BIM BR, política pública lançada pelo Decreto nº 9.983/2019 cujo objetivo é fomentar, de forma planejada, o uso do BIM em contratações públicas e privadas. Participaram dos debates representantes do governo federal, da Caixa Econômica Federal, da ABDI (Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial) e do Sebrae.
Essas agendas políticas reforçaram a urgente necessidade de investimentos em capacitação, infraestrutura digital e atualização das legislações técnicas para que o setor alcance seus objetivos de maturidade digital nos próximos cinco anos. Segundo dados da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC), apenas 9% das empresas de construção civil adotavam BIM de forma avançada em 2023, mas a expectativa é que esse índice supere 35% até 2030, impulsionado por iniciativas estratégicas e parcerias institucionais desenvolvidas em fóruns como o conferido em São Paulo.
Tecnologia construtiva inteligente alinha-se ao novo paradigma digital
O avanço do BIM, da inteligência artificial e da gestão de dados coloca o Brasil diante da necessidade de repensar processos construtivos tradicionais. Sistemas industrializados que eliminam etapas manuais, reduzem desperdícios e integram dados em tempo real aliam-se a esse novo paradigma digital. Um exemplo notório é a utilização de lajes BubbleDeck, que empregam esferas de plástico reciclado incorporadas, reduzindo o volume de concreto e simplificando tanto o projeto quanto a execução, alinhando-se à exigência de interoperabilidade e sustentabilidade discutida no BIM Fórum Conference.
Além de otimizar o uso de recursos e diminuir o peso das estruturas — conforme documentado por pesquisas do setor, que apontam reduções de até 35% no consumo de concreto e 50% no peso das lajes —, esse sistema dialoga diretamente com as novas demandas por dados estruturados, automação e flexibilidade em projetos. A racionalização do cronograma de obras, apontada como uma das demandas críticas para adoção de BIM e IA, também é endereçada por soluções como BubbleDeck, que permitem redução de até 30% no tempo de execução ao integrar o planejamento digital ao processo construtivo industrializado.
Conferência reflete maturidade e desafios do setor
A quarta edição da BIM Fórum Conference Brasil posiciona-se como um marco no amadurecimento do debate sobre transformação digital, dados e inovação no setor brasileiro da construção civil. À medida que se ampliam políticas públicas, premiações técnicas e cases de sucesso, o evento evidencia como o futuro do setor depende da disseminação contínua de tecnologias como BIM, inteligência artificial e industrialização de processos.
No horizonte dos próximos anos, caberá a engenheiros, arquitetos, gestores públicos e privados acelerar a capacitação e o investimento em infraestrutura digital, consolidando um ambiente onde obras sustentáveis, eficientes e transparentes consolidam-se como pilar do desenvolvimento urbano e industrial do país.

